O desejo de ocupar o coração de alguém pode acabar nos impedindo de enxergar quem está nele.
E SE O HOMEM MAIS APAIXONADO DA HISTÓRIA NÃO ESTIVER APAIXONADO POR NINGUÉM ALÉM DE SI MESMO?
Ser amado sempre nos foi apresentado como o tesouro no fim do arco-íris. A experiência mais confortável e arrebatadora para ser vivida. Quando gostamos de uma pessoa, é natural desejar que ela também goste de nós. Queremos ser correspondidos, lembrados, escolhidos. Queremos ocupar um lugar especial na vida de alguém.
E o que significa, de fato, ser amado?
Talvez possa funcionar como uma confirmação. Não apenas de que somos importantes para alguém, mas de que somos desejáveis, interessantes e suficientes. É como se o sentimento do outro pudesse resolver alguma coisa dentro de nós, preencher uma ausência ou validar uma imagem que construímos sobre quem somos.
Mas será que vale ser amado por alguém cuja liberdade precisamos diminuir para garantir que continue ao nosso lado?
Esse conflito aparece na relação entre Bear e Nicki, em Obsessão. Bear está apaixonado por ela há bastante tempo e parece disposto a aproveitar qualquer oportunidade para finalmente conseguir ficar com ela. Ele tenta se aproximar, procura momentos a sós e demonstra repetidamente o quanto gostaria de transformar aquela amizade em algo a mais. Mas Nicki não parece estar na mesma sintonia. Enquanto Bear enxerga cada aproximação como uma possível chance, ela não demonstra o mesmo interesse romântico.
Durante o filme, comecei a pensar um pouco sobre o significado dessas cenas platônicas, e algo ficou latente na minha cabeça: até que ponto a insistência de Bear vem do amor que sente por Nicki e até que ponto tem a ver com a necessidade de finalmente ser escolhido por ela? Afinal, depois de tanto tempo desejando alguém que não corresponde da mesma maneira, ser amado por essa pessoa pode acabar significando muito mais do que simplesmente viver um romance.
Nicki é bonita, livre, sensível e admirada por outras pessoas. Tem uma energia que desperta interesse e transmite uma espontaneidade que contrasta com o mundo triste de Bear. Ser escolhido por ela talvez não signifique apenas conquistar uma relação, mas ocupar um lugar de destaque na vida de alguém que ele próprio considera tão especial.
Bear pode gostar genuinamente de Nicki, mas, por desejar o amor dela a qualquer custo, não acredito que seja amor. E acho que isso consegue se comprovar um pouquinho quando a necessidade de receber esse amor se torna tão grande que ele já não consegue enxergar com clareza o que Nicki deseja.
Então, será que Bear deseja Nicki ou deseja a versão de si mesmo que acredita que existiria caso ela o amasse?
O DESEJO DE SER ALGUÉM PARA ALGUÉM
Em determinado momento, Bear pede ao salgueiro que Nicki o ame mais do que qualquer coisa no mundo. O pedido, por si só, já revela uma necessidade que ultrapassa o desejo de viver uma relação. Ele não quer apenas que ela goste dele ou que os dois possam construir alguma coisa juntos. Quer ser amado acima de tudo, ocupar uma posição absoluta, ser alguém insubstituível. Não parece haver muito espaço para qualquer sentimento que não tenha Bear como destino.
Então, o desejo se torna perturbador. Nicki não estava apaixonada por ele daquela maneira. A mulher que Bear conhecia, com seus próprios sentimentos, vontades e contradições, não correspondia à intensidade que ele esperava receber. Depois do pedido, porém, isso muda. Nicki é controlada por uma possessão espiritual, e o que surge no lugar de seus sentimentos não é exatamente o amor que Bear desejava, mas uma forma de devoção obsessiva, marcada por ciúmes, insegurança e dependência emocional.
Existe uma diferença enorme entre ser amado e ser o objeto de uma obsessão. O primeiro pressupõe que o outro tenha liberdade para escolher estar ao nosso lado. O segundo transforma essa escolha em necessidade, como se a existência de uma pessoa só fizesse sentido em função da outra. A possessão leva esse desejo ao extremo: Nicki passa a demonstrar uma intensidade que, embora possa parecer a realização do pedido de Bear, não representa necessariamente aquilo que ela sente de verdade.
O mais inquietante é que Bear parece encontrar nessa nova versão de Nicki algo próximo daquilo que tanto queria. A atenção é absoluta, a devoção parece não ter limites e ele finalmente ocupa o centro de tudo. Mas a que custo? A pessoa que está diante dele já não se expressa inteiramente por si mesma.
O amor que ele pediu foi pago pela perda da individualidade de Nicki — justamente aquilo que deveria ser preservado.
Isso também torna mais complexa a ideia de que Bear está simplesmente apaixonado. Ele parece desejar não apenas a presença de Nicki, mas a garantia de que ela nunca irá embora, nunca escolherá outra pessoa e nunca terá um sentimento maior do que aquele que dedica a ele. É uma expectativa que transforma o afeto em controle.
E, quando a insegurança se mistura à necessidade de exclusividade, o desejo de ser amado pode facilmente se confundir com o desejo de possuir.
É DIFÍCIL OUVIR OS GRITOS ABAFADOS COM OS OUVIDOS TAPADOS PELA PAIXÃO?
Enquanto Bear parece cada vez mais envolvido na própria fantasia, Nicki transmite uma sensação completamente diferente. Durante o sexo, seus olhos permanecem abertos, sua expressão parece distante. Quando diz que o ama, abaixa o olhar. São detalhes pequenos, mas que me chamam atenção justamente porque a intimidade costuma ser um dos momentos em que menos conseguimos esconder o que sentimos. É quando estamos mais próximos de alguém, quando a troca deveria acontecer sem precisar ser forçada. Nicki está ali, nos braços de Bear, mas não parece realmente com ele. E, por mais que ele tenha conseguido ouvir as palavras que tanto queria, não parece interessado em perceber o que está por trás delas.
Isso fica ainda mais evidente quando o espírito que ocupa o corpo de Nicki está adormecido e ela finalmente consegue falar por si mesma. Desesperada para sair daquela prisão, ela implora que Bear a mate, que coloque fim ao sofrimento que está vivendo. É um pedido de socorro. Nicki não está falando sobre o relacionamento dos dois, muito menos tentando dizer que Bear é insuficiente. Ela está pedindo para deixar de viver daquela maneira.
E Bear responde:
“É tão ruim assim estar comigo?”
É assustador como, diante de alguém que está implorando para ser libertada, Bear consegue ouvir apenas uma rejeição. Nicki está sofrendo, está presa em um corpo que já não consegue controlar, e ele se ofende porque ela não o ama. Naquele instante, fica difícil enxergar amor no que ele sente. O desejo de estar com Nicki parece ter ocupado tanto espaço que ele já não consegue enxergar a própria Nicki. Nem mesmo quando ela está diante dele, pedindo ajuda.
SER BOM NÃO OBRIGA NINGUÉM A TE AMAR
A relação dos protagonistas do filme me fez pensar um pouco sobre a vida real: a expectativa de que oferecer amor, cuidado e disponibilidade deveria produzir algum tipo de retorno.
É claro que relações envolvem trocas. Esperamos consideração, respeito, cuidado e presença das pessoas com quem construímos vínculos. Mas existe uma diferença entre desejar reciprocidade e acreditar que o afeto oferecido cria uma obrigação romântica. Ninguém se torna devedor de um relacionamento por ter recebido carinho. A amizade não é uma promessa de namoro, assim como a intimidade não representa consentimento para uma relação que a outra pessoa não deseja.
Essa confusão pode ser especialmente difícil de reconhecer porque não é uma cobrança explícita. Às vezes, o ressentimento de quem acredita ter feito tudo certo e, ainda assim, não foi escolhido, já traduz a intenção. Acreditar na sensação de que o outro deveria perceber o quanto somos bons para ele, como se ser uma pessoa disponível, compreensiva e presente fosse suficiente para garantir um lugar no coração de alguém.
Mas gostar de alguém não é preencher um formulário de requisitos. Não existe uma quantidade de cuidado capaz de obrigar outra pessoa a sentir o mesmo. O afeto não funciona como uma dívida que pode ser cobrada depois.
Acredito que Bear nunca tenha amado Nicki, justamente pelas atitudes que o levaram ao fim — sim, ele morre. Até que ponto Bear estava atento ao sofrimento de Nicki? E até que ponto estava preocupado com o que esse sofrimento representava para a vida que imaginou ao lado dela?
REJEIÇÃO
Na psicanálise, o desejo é bem diferente da ideia de simplesmente querer alguma coisa e conquistá-la. Jacques Lacan, ao pensar o amor, trabalha justamente com a falta e com a impossibilidade de encontrar no outro uma resposta definitiva para aquilo que nos constitui.
Sua frase “amar é dar aquilo que não se tem a alguém que não quer receber” provoca uma reflexão interessante sobre o amor. A frase traz uma contradição interessante… amar envolve oferecer algo que não possuímos por inteiro e se dirigir a alguém cujo desejo nunca estará completamente sob nosso controle.
O outro não existe para completar todas as nossas faltas. Não é uma extensão de nós mesmos, nem uma resposta que podemos conquistar se encontrarmos as palavras certas ou oferecermos o suficiente. Existe sempre uma parte de sua subjetividade que escapa ao nosso alcance. A pessoa que amamos continua sendo alguém independente, com vontades que podem coincidir com as nossas ou seguir em outra direção.
Freud discute como a relação que estabelecemos com nós mesmos participa da maneira como investimos afetivamente em outras pessoas. Ao abordar diferentes formas de escolha amorosa, ele observa que podemos amar alguém a partir daquilo que somos, daquilo que fomos ou daquilo que gostaríamos de ser.
Isso não significa que todo amor seja egoísta ou que escolher alguém envolva necessariamente procurar um reflexo de si mesmo. Mas ajuda a perceber que a imagem que construímos sobre nossa própria identidade também participa do desejo.
Às vezes, o que nos atrai em alguém não está apenas nas características dessa pessoa, mas no significado que sua presença adquire para nós.
Ser amado por alguém que admiramos pode parecer uma confirmação de que também somos dignos de admiração. Ser escolhido por alguém que consideramos especial pode nos fazer sentir especiais. Assim, o sentimento do outro acaba funcionando como um espelho, em que queremos encontrar nele uma imagem de nós mesmos que talvez ainda não consigamos sustentar sozinhos.
O desejo do outro não é uma extensão do nosso. E talvez uma das experiências mais difíceis de qualquer relação seja perceber que não temos como produzir, por esforço ou insistência, o sentimento que gostaríamos de receber.
A rejeição, então, nem sempre dói apenas pela perda de uma possibilidade de relacionamento. Ela pode atingir também a percepção que temos de nós mesmos. Se alguém que consideramos tão especial não nos escolhe, o que isso diz sobre nós? Por que não fomos suficientes? O que existe de errado naquilo que oferecemos?
Talvez Bear não queira apenas que Nicki o ame. Talvez precise que ela o ame para conseguir acreditar em algo sobre si mesmo. E, quando o sentimento do outro passa a carregar essa responsabilidade, a relação deixa de ser apenas um encontro entre duas pessoas. Ela se transforma em uma tentativa de resolver, através de alguém, uma questão que pertence também a quem deseja.
O PERSONAGEM DOS SONHOS
Bear não me parece, à primeira vista, aquele personagem que deveria causar medo. Ele é apaixonado, demonstra carinho, tenta se aproximar da mulher de quem gosta e parece sofrer por não ser correspondido. Em muitas comédias românticas, provavelmente seria o protagonista pelo qual deveríamos torcer. O homem que insiste, aparece de surpresa, que não desiste da garota mesmo depois de tantas tentativas. E, no final, a persistência acaba sendo recompensada com um beijo.
Mas fico pensando em como essa imagem é construída. Por que achamos tão bonito um homem que não consegue aceitar que uma mulher simplesmente não está interessada nele? Por que a insistência parece tão encantadora quando vem acompanhada de declarações apaixonadas, gestos de carinho e uma trilha sonora bonita? Bear queria tanto ser amado por Nicki, mas não conseguiu deixá-la livre para amar quem quisesse.
Se o sentimento dele fosse tão grande quanto parecia, por que a vontade dela nunca foi suficiente para fazê-lo recuar?
O que me incomoda é que Bear não está tão distante de muitos personagens masculinos que aprendemos a idealizar. A diferença é que Obsessão leva essa lógica a um lugar extremo e nos faz olhar de novo para aquilo que, em outras histórias, talvez considerássemos apenas uma demonstração de amor. No fundo, a fofura também pode ser uma maneira bastante conveniente de disfarçar a incapacidade de aceitar uma rejeição.
AFINAL, QUEM ESTAMOS TENTANDO CONQUISTAR?
Existe algo curioso na vontade de ser amado: ela pode ocupar tanto espaço que acaba expulsando o próprio amor. A necessidade de ser escolhido, admirado e colocado em primeiro lugar pode fazer com que a pessoa amada se torne apenas um instrumento de validação. Seu desejo importa, desde que coincida com o nosso, e sua liberdade é bem-vinda, desde que não nos exclua.
Bear ama Nicki? Talvez o maior questionamento seja o quanto ele consegue enxergá-la para além daquilo que deseja receber dela. É possível que exista amor em seus sentimentos, mas isso não impede que esse amor esteja misturado a inseguranças e à necessidade de ser reconhecido.
Amar alguém exige reconhecer que essa pessoa pode não nos escolher. Que ela pode ter outros desejos, outros caminhos e uma vida que não precisa girar em torno da nossa. Não existe garantia de reciprocidade, assim como não existe uma fórmula capaz de transformar a dedicação em sentimento.
Ser amado é desejável.
Quem não gostaria de ocupar um lugar especial na vida de alguém? Mas queremos ser amados de que forma? O afeto pode ser oferecido e compartilhado, mas nunca deveria ser negociado como uma recompensa.
No fim, talvez a questão mais desconfortável não seja descobrir se Bear ama Nicki ou a ideia de ser amado por ela. É reconhecer que essa confusão não pertence apenas à ficção.
A vontade de ser escolhido está em nossas próprias relações, expectativas e na maneira como interpretamos os gestos de quem está ao nosso redor.
Quando desejamos tanto que alguém nos ame, ainda estamos olhando para essa pessoa ou apenas esperando que ela nos devolva uma versão de nós mesmos que gostaríamos de encontrar?
