Durante a rotina, qualquer estratégia que faça o tempo passar mais rápido parece necessária. Foi com esse pensamento que, há alguns dias no metrô a caminho para a faculdade, eu buscava alguma música para ouvir, quando um homem ao meu lado começou a descascar uma laranja.
Coloquei meus fones, peguei um livro e observei todos no vagão imersos em seus celulares. Quietos. Quando notei, o homem me chamava, me oferencendo um pedaço da laranja. Neguei, agradeci e mantive meus fones no ouvido.
O senhor – que claramente não era de São Paulo – me chamou novamente, perguntando onde haviam museus por perto. Expliquei como chegar ao Museu do Ipiranga e à Pinacoteca. Ele ouviu, agradeceu e desembarcou na estação seguinte.
Me senti culpada por não ter sustentado a conversa. Mas, acima disso, me senti “adaptada”. O desconforto e a pressa em encerrar a interação partiram de mim.
Isso me fez levantar uma questão: por que não falamos com ninguém? Sentimos medo ou irritação?
Recentemente, tenho notado como desaprendemos a nos encontrar. Evitamos olhares, recusamos interações, transformamos qualquer aproximação em incômodo. E, ainda assim, seguimos ocupando os mesmos espaços – como se fosse o limite máximo de convívio social que estamos dispostos a aceitar.
Parte disso é compreensível. Em uma sociedade em que mulheres aprendem desde cedo a se proteger, fechar o semblante para não atrair olhares maldosos e manter distância, pode ser uma forma de segurança. O silêncio, muitas vezes, se estabelece como estratégia.
Então, quando foi que nos acostumamos com a solidão a ponto de nunca dispensá-la?
Manual para aprender a se afastar: viva na cidade grande
Buscando um motivo cientifico que justifique essa reação, encontrei um artigo de 1970, criado pelo psicólogo social, Stanley Milgram. O pesquisador criou um termo no qual explica exatamente o motivo de nosso distanciamento social. A Teoria da Sobrecarga.
De acordo com Stanley, pessoas que vivem em grandes cidades são expostas a estímulos sensoriais e sociais – trânsito, ruídos e multidões. Como tentativa de lidar com essa carga de informações e evitar esgotamento cognitivo, o cérebro tende a desenvolver mecanismos de defesa que bloqueiam reações ao externo, nos reformatando para um estado socialmente reservado e apático.
Exemplo disso somos nós, paulistanos, mal conhecidos por sermos fechados, grosseiros e quase sempre tão emocionalmente desbotados quanto o céu cinza da cidade.
Milgram descreve a vida metropolitana como um núcleo denso de sobrecarga física – fluxo alto de pessoas no mesmo espaço – e social. O cérebro humano se esgota ao processar toda a informação exposta e se sobrecarrega.
Os efeitos desse quadro são definidos como retirada psicológica, que, resumidamente, são adaptações comportamentais. Neles, desenvolvemos:
- Atenção Seletiva (ouvimos o que queremos).
- Superficialidade social (interagimos de forma rasa e impessoal).
- Indiferença com o coletivo
Existe em nós um hábito silencioso de afastamento, uma recusa automática ao outro. Transformamos qualquer interação espontânea em obrigação, e principalmente, em risco.
O mais irônico, é que, enquanto nos afastamos fisicamente, continuamos encenando proximidade. Respondemos mensagens, reagimos a stories, acompanhamos rotinas inteiras por vídeos. Estamos constantemente presentes, mas nunca disponíveis.
Vivemos em alerta. Um gesto banal – como oferecer uma laranja – pode não ser apenas educação. Precisa ser interpretado, filtrado e recusado.
Não agimos assim porque sempre existe perigo, mas porque já não sabemos identificar quando não há.
